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EDITORIAL
A voz do psicanalista
Em uma carta a Pfister (5 de junho de 1910), Freud escreve: “Ora, essas coisas psicanalíticas só são compreensíveis se forem relativamente completas e detalhadas, exatamente como a própria análise só funciona se o paciente descer das abstrações substitutivas até os ínfimos detalhes. Disso resulta que a discrição é incompatível com uma boa exposição sobre a psicanálise. É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa e queima os móveis para que o modelo não sinta frio.Sem alguma dessas ações criminosas não se pode fazer nada direito”. Não se pode ser verdadeiramente analista, pois essa profissão exige dedicação constante e paixão.
No livro sobre os sonhos Freud faz-se espetáculo e torna-se,simultaneamente, observador de si mesmo, introverte-se, expõe-se, arrisca-se ao caminhar por regiões mentais ignotas, auto-analisa-se e cria uma linguagem e sintaxe para conceder forma e significar a imagem em sua mente, a imagem intuída de si mesmo transformada em narrativa. Noemi Moritz Kon (Freud e seu duplo, EdUsp,1966), seguindo Merleau-Ponty, assinala que “a palavra não é mera tradução de um sentido mudo, mas sim criação de sentido. E o sentido é o resultado de um ultrapassamento do significante pela significação e o concomitante engendramento de novas sinificação pelo significante”.
Freud sugere, no texto Delírios e sonhos na Gradiva de W. Jensen, que “o psicanalista usa a observação consciente de processos psíquicos de outros, a fim de poder decifrar e enunciar leis. O romancista concentra suas atenções sobre o inconsciente de sua alma, escuta todas as suas virtualidades e lhe dá expressão artística, no lugar de reprimi-las pela crítica consciente. Ele apreende, nele mesmo, o que nós aprendemos através dos outros, ou seja, as leis que regem a vida inconsciente; mas esse ponto não precisa ser por eles expresso, nem mesmo ser percebido claramente; graças à tolerância de sua inteligência, elas são incorporadas à sua criação”.
Podemos acrescentar que o consciente do analista, antes de enunciar as leis que regem o inconsciente, precisa estar com o seu inconsciente receptor sintonizado com o inconsciente emissor do paciente para que possa transformá-lo em linguagem verbal. Assim, o analista trabalha, simultaneamente, com o inconsciente do paciente em constante reverberação com o seu próprio inconsciente receptor e com suas formas de sentir e pensar. Essa relação única que se forma entre o paciente e o analista empático e intuitivo é a condição necessária para que o processo transformacional das impressões emocionais e sensoriais geradas pela dupla, no instante da interação analítica, tenha início. Lydia Flem (citada por Noemi Moritz Kon) assinala que não existe conhecimento acerca do inconsciente que não nasça do inconsciente. E acrescenta que Freud foi buscá-lo na tríplice fonte da auto-análise, das falas sofredoras de seus pacientes e das narrativas literárias. Nessa perspectiva, a psicanálise é um conhecimento que se realiza, simultaneamente, nos registros cognitivo, intuitivo e emocional; no plano científico e estético de conceder sentido e significação à experiência
Talvez possamos dizer que tanto o analista quanto o escritor lutam ativamente com a linguagem para criar idéias, sentenças e uma voz própria com que dizê-las. Este empenho para transmitir a própria experiência com suas próprias palavras, com a sua própria voz, é o que significa estar vivo em uma relação analítica ou em um texto literário.
Procurando contribuir com os estudos sobre este assunto (a voz) tão fascinante, Psicanálise e Criatividade coloca no ar o ensaio “As vozes do analista e do escritor”, de autoria do editor do site, bem como o poema “Paixão Nagual” do poeta Ruggero Quenttalloni. No poema, a voz poética freqüenta regiões pré-históricas da manifestação amorosa. Em seus versos, o poeta nos dá a ver a cena de devoração canibal da mulher desejada e nos permite ouvir o uivo da paixão desenfreada. Ao final da canção, irmanados com o poeta, quedamos, bestas ancestrais, com a boca toda ensangüentada, solitários e arrependidos na floresta, a chorar e orar pela perda definitiva da amada. Seguindo esta mesma linha, o ensaio “Nos meandros da alma: a ordenação literária e psicanalítica do mundo interior”, estampado no site, trata da fantasia e do desejo de constituir com a amada a unidade outrora vivida no útero materno. Guilherme de Almeida (“Melhores Poemas”. São Paulo:Editora Global, 2001) comparece com dois poemas: “Os últimos românticos” e “Fetichismo”.
Ainda sobre este tema, eis como se expressa Guilherme de Almeida em seu pequeno cristal, “Nós dois”,
Chão humilde. Então,
Riscou-o a sombra de um vôo.
“Sou céu!” disse o chão.
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