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DANAÇÃO, REDENÇÃO E ASCESE - Conto de José Francisco Gama e Silva
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DANAÇÃO, REDENÇÃO E ASCESE - Conto de José Francisco Gama e Silva
Que cérebro sujo é o teu? Por quê não esfregas teu cérebro com potassa? Por quê? Porque não te lavas por dentro?
Somos todos leprosos!
Não há, nunca houve o canalha integral, o pulha absoluto. O sujeito mais degradado tem a salvação em si, lá dentro.
Nelson Rodrigues
Dor
Paulo Silveira repousou o copo sobre a mesa, virou-se para o Hélio Pellegrino e, com uma tênue e diáfana comoção em sua voz, esclareceu:
- Sabe, Hélio, vou trabalhar o texto sobre o Nelson Rodrigues tendo em mente a noção de dor mental. Aquela dor que não se sabe onde é que dói, como o Francisco escreveu, parafraseando o Dante Milano. E também com a noção de queda e danação, que é a nossa vida aqui na terra, nesse vale de dor e lágrimas.
Pausa. Agora ligeiramente ofegante: - Aquela dor comentada por um personagem do Dennis Lehane em Sagrado, que acabou de sair pela Companhia das Letras. O livro exala dor e sofrimento, crueldade, voracidade predatória irreprimível, o fedor das entranhas emocionais do homem. Hélio, essa é a área de vocês, não é Francisco? E aí você, como leitor, não sabe de que espécie de dor ele fala: trata-se de uma dor carnívora que vai te devorando por dentro, quer você se aperceba disso ou não. É muito parecida com um câncer, e um belo dia você acorda e ela já devorou todas as outras emoções – alegria, inveja, ganância e até amor. E você está sozinho com a dor, absolutamente vulnerável a ela. E ela toma posse de você. É, como disse o Francisco, uma dor na fronteira psicobiológica. Uma dor que se inicia nas regiões remotas da existência, e que parece derivar de um núcleo abissal de frustração. No âmago de suas vidas, os personagens do Lehane são uns fodidos, uns frustrados emocionais e essa frustração os compele a um relacionamento predador com o outro. O outro existe para ser explorado e controlado a serviço de sua insaciabilidade infinita. Me lembra o Kurtz, de "O coração das trevas", do Conrad.
Francisco, aproveitando a dica e a pausa respiratória de Paulo, comenta:
-Acho, Paulo, que você está aproveitando a descrição que o Lehane faz da dor do personagem, para ir além. Por isso você pediu que nos encontrássemos, para que te ajudemos a significar esse sofrimento, que parece ser a dor do Nelson Rodrigues, uma dor na alma, uma dor na carne, que te devora. Até bem pouco tempo você estava sendo devorado por essa dor. Te lembras daquele momento teu com a Ana Flávia?
- É isso, cara, é isso.... Mas eu também estava com saudade de vocês. Vocês são os meus andaimes emocionais... Foi isso o que o Sérgio falou outro dia, não foi?... Mas vamos continuar com a dor...
- E essa dor é tão horripilante – interrompe Hélio – que o que você sente mesmo é vontade de se matar e retornar ao nada, ao doce nada, como disse o Sant’Anna. É a tua esperança de salvação. De encontrar no abismo celestial a mulher-mãe idealizada com quem você conta se fundir...
- Impressionante como psicanalista adora falar em mãe... – comenta Paulo, e continua: - No livro do Lehane as relações humanas são aterradoras. O que move os personagens principais, o Trevor Stone e a sua filha, Desirée, é a ambição desmedida; não há, entre os dois, um único e escasso momento de ternura, e terminam por se entredevorar em um festim de destruição. Eles habitam um espaço no qual as relações se degradam, um lugar de danação infernal, que contrasta com a relação de admiração, amor e cuidado – o espaço sagrado – que existe entre Patrick Kenzie e Angela Gennaro, cujos cabelos negros, quando tocados pelo vento, acariciam-lhe docemente a face linda. Kenzie e Angela são os detetives que durante a investigação contratada por Trevor, vão como que nos revelando as regiões hediondas da alma, Hélio, das almas carentes de amor e beleza, e que por isso acreditam na acumulação compensatória e irrefreável de riqueza, como algo que lhes dará poder e independência. O maxilar do milionário está sendo carcomido por um câncer mortal, um câncer que serve de metáfora para a destruição autofágica do predador insaciável. A fome abissal o corrói por dentro, come a sua própria boca. Ele é, como diria o Nelson, um grã-fino, um milionário faminto, um pau-de-arara emocional que tinha velhas fomes enterradas na alma .
- O buraco cancerígeno que se formou em torno da boca do Trevor – interrompe Francisco – é o lugar onde deveria estar o mundo, aquela bolona enorme pro Trevor engolir ou esvaziar até o último grão... É o buraco negro que foi descrito pela Frances Tustin.
- Como assim? O que você quer dizer com isso?
- O seguinte: a Tustin, ao estudar crianças autistas e esquizofrênicas, concluiu que a sensação do seio na boca do bebê é vital para o bom desenvolvimento da psique, junto com o aconchego, os olhos vivos, a presença emocional e empática da mãe. Esse acontecimento gera a sensação de que o filho e a mãe constituem um contínuo, a teta, a boca e o seio equacionando-se e fundindo-se ao seu corpo e às suas sensações. É a ilusão da unidade na dualidade, digamos assim. Situações traumáticas nessa etapa inicial da vida pós-natal, como frustrações impostas além do limite de tolerância do filho, ou a falta de ressonância empática da mãe em seus cuidados maternos, são um desastre, pois conduzem o bebê à percepção prematura e dolorosa da separação sem que as fundações de sua personalidade estejam devidamente alicerçadas. As fundações consistem em marcas mnêmicas positivas derivadas da boa relação mãe-filho. São traços que se inscrevem no ego-corporal, no terreno psicobiológico, de onde as fantasias mais primitivas se originam. São os alicerces de sua personalidade pela vida a fora. Os eventos traumáticos, Paulo, podem gerar no bebê a sensação de perda irreparável, a sensação de que algo (o corpo da mãe, a teta, o seio) se desgarrou de sua boca e de seu corpo, ficando-lhe a sensação de um buraco, de um vazio inominável e aterrador por onde a sensação de vida se esvai. Aí reside a fonte ou a raiz da fome insaciável, daquela fome enterrada na alma que o Paulo falou. Uma saída para essa sensação paranóide primordial, durante o processo do desenvolvimento, é a acumulação de bens materiais, ou de comida, divertimento, sexo ou atividade ininterrupta. Estou te dando apenas um resumo de uma situação bastante complexa para vocês terem uma idéia desse horror.
- Estou lembrando, diz Hélio, de uma situação clínica em que uma paciente tem um sonho recorrente desde a infância, no qual se vê caindo de um globo em um nada escuro e aterrorizante, sem que haja alguém para ampará-la e envolvê-la com calor, ritmo e harmonia. Em outro, ela sonha com um bebê de pai desconhecido, não havia pai envolvido na história, ele ainda não fora, provavelmente, apreendido como objeto de percepção. O bebê nasceu a termo, de parto normal, era saudável, mas eis que subitamente começou a se desenvolver uma espécie de buraco em sua bochecha, ao lado da boca, transformando-a em uma grande abertura. Agora, como o bebê iria mamar? Como ela iria mamar? Porque o bebê do sonho é a representação imagética dela naquela situação inicial. Dá pra entender, Paulo? Então ela envolveu a criança em um cobertor e a ferida começou a fechar e a cicatrizar. Vejam: no primeiro sonho, a paciente não apresenta registro mnêmico de alguém que a contém e ampara, e ela cai em um vazio infindável. No segundo, provavelmente devido à ação terapêutica, a paciente, identificada agora com a função de contenção do analista, que consiste, entre outras coisas, em transformar as sensações, as impressões sensoriais / emocionais primevas em símbolos e linguagem, é capaz de narrar-se e de construir uma imagem reparadora de uma situação que resultou na impressão devastadora de perigo de vida. Sou capaz de jurar que o calor da pele / cobertor oferecido em uma atmosfera amorosa foi vital para que a ferida sarasse.
- Hélio... Hélio... estou ficando comovido com essa história. Vamos pedir um pecorino para acompanhar esse vinho maravilhoso, – sugere Paulo, agora dirigindo-se ao garçon: O pecorino, Reginaldo, o pecorino, e continua: - Um outro personagem do Lehane, ao descrever a sua dor pela perda da mulher amada, diz que a dor está em suas mãos, que conservam as impressões táteis da carne dela. Está em suas narinas ao sentir o cheiro do mar que ele via refletir em sua pele, no cheiro da areia grudada em seu corpo esplendoroso. Eu juro, cara, a dor não mora no coração. Mora nos sentidos. E aí ele diz à Angela e ao Kenzie que, às vezes, o seu único, absoluto e íntimo desejo é cortar os seus dedos, arrancar o nariz e os olhos para extirpar a lembrança do cheiro dela, da imagem dela, dela toda, dela grudada nele, agora invisível ao toque e ao abraço. Que dor filha-da-puta, essa, cara!
- Nós somos uns desvalidos, intercede Hélio. Nós vivemos em uma eterna queda, tentando nos amparar uns nos outros, procurando penetrar na carne do outro para reconstituir nossa essência monádica.
- Não sejas hiperbólico, Hélio...
- Que hiperbólico que nada, Francisco! Eu sou um emocional, um intuitivo, eu sinto as entranhas da alma. Eu sinto a presença desse lugar em mim, sinto o desejo que todos sentimos de nos fundirmos com o outro, com a mulher amada e idealizada, da qual nos sentimos esgarçados, arrancados e jogados em uma realidade impossível. O que almejamos, no fundo, é retornar à matriz, ao núcleo matricial, espíritos ébrios e sedentos que somos de um amor absoluto. (Acho que foi o Sant’Anna que falou isso; sim, sim, li no Vôo da madrugada, será que foi mesmo, hem?). Pausa, agora ofegante: - Eu sou você, Francisco. Eu sou o Nelson, todos nós, você, o Paulo, o Sérgio, somos o Nelson, somos falados por ele. Somos como o Edmundo, em Album de família, que deseja o céu, não o céu depois da morte, mas o céu antes da morte – o útero materno.
- Hélio... ouve. Repara. O Stone, cara, o Trevor Stone, que o Paulo tão bem descreveu, o Trevor, - continua Francisco - é um anjo caído que se ampara na fortuna acumulada pra criar a ilusão fortuita de poder, de arrogância prepotente, de onde ele degrada as pessoas, compra-as, exaure-as em seu benefício exclusivo. Ele vive para demonstrar a sua independência, ele se sente o dono de si mesmo e do mundo e debocha e destroi, no outro, a parte frágil e necessitada de si próprio. O Rosenfeld, o Herbert Rosenfeld – vocês o conhecem? – o descreveria como portador de uma organização narcisista patológica... Um predador movido pelo ressentimento e pelo ódio destrutivo. Repito: ele é um fodido, um desamparado. O desamparo dele é do tamanho da fortuna dele. Lá sei, mas tenho a impressão – isto é pura construção imaginativa – de que o Trevor imagina-se ser o portador exclusivo da fonte de alimento, como se fosse, ainda, o gerador de si mesmo. No seu ser mais íntimo, ele vive o desconforto avassalador do desamparo emocional e amoroso que o corrói como um câncer e o enche de dor.
Paulo, enfático: - Vocês imaginem que o filho-da-puta... a gente não sabe ao certo se ele ama a filha ou a odeia, acho que as duas coisas. Ele a odeia porque ela vai sobreviver a ele e vai herdar a grana dele, a fonte do alimento, o seu instrumento mágico gerador da ilusão de posse absoluta, posse da fonte da sobrevivência psíquica. Ele não se sente nela, Desiree, permanecendo nela, sua filha, como memória após a morte, pois ele não consegue ultrapassar o limite exíguo e obscuro de si mesmo (o seu narcisismo patológico, como disse o Francisco) e doar-se a ela. O Stone é prisioneiro de um passado de horror, aferrado à algema de um suplício... Amigos, eis a verdade: acho que estou começando a inventar uma história em cima da história do Lehane... E mais um pouco vou começar a escrever como o Nelson em staccato, de modo sincopado e febril.
- Não importa, Paulo, isso não importa – interrompe Hélio – o Francisco está escrevendo uma história, um conto, ou é você, Paulo? O que importa é o conto, o conto que nos conta a história da realização de um ensaio, o teu ensaio, Paulo, sobre o Nelson Rodrigues e a sua dor. Nós estamos aqui neste bar, ao entardecer deste sábado outonal – olha só a cor do mar, que lindo!, repara nos matizes do vermelho-azulado... Olha, vê. Repara só aquela moça que acabou de sair do mar com a sua prancha de surf, repara a luz esbatida refletindo a luminosidade do seu corpo.. Que coisa curiosa, quando vejo, assim, tanta beleza, sinto uma dor no corpo, como se aquele corpo tivesse sido extirpado do meu... vamos falar depois sobre isto, será que tem a ver com que estamos conversando? – Pois bem, nós estamos franqueando a nossa imaginação para penetrar no universo do Nelson e podermos senti-lo em nós. O Nelson que me importa é o nosso Nelson, o que ficou em nós nos inspirando e orientando nesse vale de lágrimas.
- Nós estamos falando do Lehane e ainda não falamos do Nelson. Olha, eu tenho um prazo para entregar o ensaio e a Pina – vocês conhecem? – fica no meu pé cobrando. O texto é para ser apresentado em um evento promovido pelo Departamento de Letras da PUC sobre danação, dor e as nossas possibilidades de sobrevivência em um patamar ético que permita a emergência e o florescimento do amor e da fraternidade. E o Nelson é um desbravador desse percurso, um missionário.
Hélio, servindo-se de mais um cálice do rosso, pergunta : - Você faz parte daquele grupo da Pina que estuda a obra do Nelson, aquele grupo interdisciplinar? A Pina é uma viúva espiritual do Nelson, ela é doida por ele...
- Ela me orienta, baliza o caminho. Percorrer o pensamento do Nelson é complicado, complexo; o pensamento dele, muitas vezes, é cheio de paradoxos e incoerências. Acho que os paradoxos do Nelson apontam para as incertezas e multiplicidade de sentidos inerentes à nossa vida emocional. E o que me encanta na Pina é a simplicidade e a clareza com que ela aborda essa complexidade.
- Olha, então vamos ao Nelson. E Hélio prossegue: - Mesmo falando do Lehane estávamos, em uma certa medida, falando do Nelson e de sua dor, que é a dor do mundo, o sofrimento de todos nós... O Nelson teve uma vida muito sofrida, carregada de tragédias como a morte do seu irmão, Paulo, e de sua família naquele desabamento de Laranjeiras, do Roberto, em plena redação, assassinado pela Sylvia Seraphim, como o nascimento da filha cega e paralítica. Ele e sua família de origem chegaram ao limite da fome. O Nelson era um tenso, um desnutrido, e isso lhe valeu como herança uma úlcera que lhe devorava o estômago como o fogo de um isqueiro aceso em suas entranhas (eu lí isso em algum lugar, a metáfora, sei lá, onde foi mesmo?, acho que foi no Ruy Castro). Para aguentar essa barra ele se mostrou um touro, um búfalo da ilha de Marajó. Nada o detinha. Ele era um búfalo na charrua dele, na tarefa gigantesca dele. Ele era nesse sentido um iluminado, um convocado para revelar a verdade do ser através da linguagem. Sem dúvida. Ele seguiu o preceito do velho Heidegger e promoveu a fundação do ser pela palavra. Nelson foi um mestre da linguagem. Por isso eu o chamava o Homero do subúrbio, o Homero da cultura carioca, pois era um profundo conhecedor do subúrbio, seu intérprete e porta-voz, um deputado dessa realidade social. E ele conseguiu um coloquial, uma naturalidade da linguagem.
Paulo interrompe Hélio e prossegue:
- E com essa linguagem ele mergulhou nas regiões submarinas do homem, revelando os seus íntimos pântanos, o seu mural primitivo; como disse o Pompeu de Souza, pintado com sangue e com excremento, onde se espoja toda a brutalidade poética do bicho-criatura humana. É isso, Francisco, é isso, Hélio, que eu quero surpreender, essa linguagem encarnada e expressiva que nos revela, condena e nos conduz ao calvário e à redenção.
Sérgio Sant’Anna, que chegara há algum tempo, bebia vinho e prestava profunda atenção ao que os amigos falavam, interrompe: - O Nelson, com a palavra, atingiu o mais íntimo de nossas trevas, o âmago do inconsciente, revelou o nosso desejo de retorno à comunhão indivisível com o indiferenciado de onde viemos e para o qual retornaremos, o útero, enfim. A personalidade do Nelson era toda esburacada pelas perdas que sofreu...
- Não obstante, eis a verdade – caramba, estou falando igualzinho ao Nelson! Comentou Paulo e continuou: – amigos: ele superou as perdas, se é que podemos falar assim, escrevendo sobre elas, vivendo-as em sua escritura, sofrendo e enfrentando a dor sem um desvio sequer. A dor o acompanhava ao teatro, estava presente em seus romances e folhetins, no Maracanã ao assistir os jogos do Fluminense, sempre o corroendo como uma úlcera, conduzindo-o a uma busca incessante da companhia dos amigos. Como uma cambaxirra, ele procurava um ninho para se sentir acolhido e acarinhado. Ele parecia movido por sofrimentos atrozes. Talvez por isso a sua ficção e o seu teatro representassem um movimento incessante de purificação. Ele disse, uma ocasião, que se não escrevesse seria um desgraçado.
- Concordo, concordo – disse Hélio, e continuou: O Nelson era um obsessivo, um homem que vivia passando o pires entre os amigos com grande dignidade. Ele procurava uma companhia que suportasse os seus longos monólogos pelo telefone, por exemplo.
- Ele precisava se falar o tempo todo para se costurar por dentro, alinhavar e juntar os pedaços de si mesmo, o torvelinho emocional – ponderou Francisco. Quando lhe perguntavam sobre seus pensamentos, suas idéias, suas obras, ele respondia que tomava como referência unicamente a si mesmo. Mas o que o salvou, talvez tenha sido o fato dele ser dotado de um poder lingüístico considerável, o que lhe permitiu organizar e significar o resultado de sua intensa e profunda introspecção ao passado e às fontes primevas do ser e da imaginação. Nesse percurso, ele se superou, passou por cima de si mesmo e colocou em palavras os fatores psicológicos universais que orientam a nossa vida na terra. Assim, ele trouxe a marca da tragédia clássica e dos arquétipos para a existência cotidiana. Nesse sentido é que digo que Nelson está em nós e nós, nele. Isto propicia a relação empática e a sentirmos, com ele, a voragem da queda e do apodrecimento terreno de nossas vidas. Ele escrevia compulsivamente, obsessivamente para não naufragar, manter-se, minimamente que fosse, na superfície.
Anoiteceu. Vinha do mar um vento gelado que espantava os possíveis freqüentadores. A atmosfera que se adensou entre os amigos era de uma tragédia em trinta e seis atos. Parecia anunciar-se no horizonte longínquo uma tempestade de quinto ato do Rigoleto e, para reforçar o efeito plástico da cena, viria acompanhada de um coro ruidoso de trovões e relâmpagos de curto-circuito. Paulo, percebendo que Francisco estava se deixando levar pelo peso trágico e imaginativo de Nelson, intercedeu propondo um brinde, e solicitou mais vinho: que viesse acompanhado de um antipasto composto de beringelas, abobrinhas, azeitonas variadas, pimentão vermelho e amarelo e procciuto di Parma. Todos aplaudiram o pedido: - Ao Nelson, ao Nelson, que ele esteja usufruindo do nada pleno!... Ho, ho, ho, ho – exclamou Sant’Anna e continuou:
- Eu tenho a impressão de que o Nelson sentia uma dor semelhante a de um homem a quem se tortura com um instrumento cortante sobre uma chaga viva e a dor é tão intensa que ele se surpreende como uma dor pode ser tanta e percebe pela primeira vez a exatidão da expressão dor aguda e, ainda assim, pensar que ser humano é uma espécie de nervo.
- Porra, Sérgio, você veio com tudo, cara, que bom você estar aqui com a gente. Assim teremos um contraponto literário ao psicanalismo do Francisco e do Hélio, há, há, há....
- Isso é do Gorila, do meu conto... Estou vendo que vocês já beberam duas garrafas de vinho e estão ficando alegrinhos. Mas vamos falar sério, Paulo: a concepção literária do Nelson era instintiva, um influxo emocional desmedido. O Pompeu de Souza – prossegue Sant’Anna – terminei ainda agora de ler o ensaio dele sobre o Nelson, eu já sabia que iríamos nos encontrar pra conversar sobre isto; pois bem, o Pompeu escreveu que o Nelson encontrava no terreno da construção cênica e no da composição literária, o campo intencional e consciente de sua estética teatral. Ele usava, para a construção cênica, todas as técnicas teatrais, das mais remotas – coral da tragédia grega, por exemplo – às mais modernas, como a dos planos móveis ou múltiplos, cinema, rádio e artes plásticas. Ele era um craque na carpintaria teatral...
- E não poderia ser de outra forma, Sérgio, você sabe muito bem do que vou falar, pois você também é um porreta na construção da tua arte – intercede Francisco, e continua com entusiasmo quase febril: - pra empreender esse mergulho que vocês realizaram às regiões remotas da alma, era absolutamente necessário que estivessem amparados pelo rigor formal do conto e da realização teatral. A forma contém e enfeixa, presta atenção, contém e enfeixa esteticamente o conteúdo emocional, é o andaime desse conteúdo. Funciona como uma pele. Oferece uma fronteira semântica às emoções e aos sentimentos. Organiza o caos e contém, no espaço estético, a infecção e o tifo presentes no chão pantanoso da psique humana. Nós vamos ao teatro e ao cinema, não é isso Hélio?, ou lemos um livro, para sabermos dessas coisas, senti-las e aprender a pensar sobre elas, como vocês, artistas, fazem. Quantas e quantas vezes, Sérgio, você utilizou o conto para organizar os teus tormentos?...
Hélio, em um influxo emotivo, extravasa os pensamentos com a sua voz de Paul Robeson branco: - O Nelson apresenta o homem como uma criatura exilada de Deus. Trata do nascimento e da morte do homem na sua substância imortal e mítica. O Pompeu considera Album de família a peça chave para avaliarmos a contribuição da obra do Nelson ao teatro, no campo da concepção criadora. Nela encontramos a matéria-prima de sua arte. Com esse texto teatral, Nelson inaugurou o conjunto de peças que qualificou de desagradáveis, ou seja, "pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia". Amigos, cabe, então, a pergunta: o que ele pretendia dizer com isso, por que pestilentas e fétidas?
O vinho e o anti-pasto foram servidos.
Queda e danação
Caso o Paraíso ou o céu existissem e, porque n, o inferno, Nelson não negaria de nos mandar de lá as suas opiniões. Ele poderia nos enviar um fax, sedex, e-mail, talvez uma carta, escrevo essas mal traçadas linhas, etc., etc., ou se fazer presente mediunicamente em uma sessão espírita ou em terreiro de macumba à maneira de "Xangô de Baker Street". Mas aqui, no espaço desse conto, podemos tomar a liberdade e imaginar que o texto transcrito mais adiante nos foi enviado via internet pelo nosso amigo, que insistiu em não nos comunicar onde se encontra, se no céu, no purgatório ou simplesmente no inferno. Você também pode imaginá-lo – porque mais plástico – em um terreno baldio na companhia do contista, em uma entrevista imaginária, soprando-lhe o conto, enquanto a cabra vadia come a paisagem e um coro de ninfas ensaia um balé abstrato. Você, leitor, escolha livremente o recanto que lhe aprouver.
Pois bem. Agora, antes de prosseguir, apenas com o intuito de abrir o tema, ouçamos o Nelson. Em uma de suas confissões, estampada no livro A menina sem estrela, ele nos conta a história de um amigo seu, na qual o vemos, o olho rútilo e o lábio trêmulo, puxar o Nelson a um canto e disparar: "Imagina rapaz, imagina". Faz um suspense e continua: "Fui com a minha mulher à praia. Fui e me aconteceu uma que...´ Parou, sem coragem de ir até o fim. Nelson pergunta: "E daí?" Ele explode: "Desejei a mãe dos meus filhos!".
Com dezoito anos de vida conjugal, acha ele que o amor não cabe mais no seu lar. E o fato de desejar a esposa, ainda que por um segundo fulminante, o dilacerou de vergonha e remorso. Sentia-se um desses faunos de tapete que, nos terrenos baldios, atropelam as ninfas desacompanhadas.
Leitor: este texto que você está lendo, não sabemos quem o escreve. A historinha acima é do Nelson, claro, e o Paulo, que a leu aos amigos, pretende usá-la como epígrafe ou ilustração ao ensaio que começou a escrever sobre o Nelson, como vocês já sabem. Portanto, trata-se de um Nelson fora do contexto, inserido em uma nova estrutura literária, abrindo-se para novas possibilidades de sentido. O Sant’Anna escreveu – não foi, Sérgio? – que uma construção para ser mais do que perfeita deve conter uma brecha para o inacabado, a imperfeição, o vazio, que propicia um vôo novo pelo que há de indecifrável em seus signos mágicos, fluidos e evanescentes.
Pois bem. Agora, nessa nossa história, Francisco, após degustar o antipasto e repousar o copo de vinho sobre a mesa, dispara: - Ela pariu quatro filhos, o mais velho tinha 18 anos... O marido foi acachapado pela jucunda demonstração de fertilidade da mulher, que se tornou, aos seus olhos, mãe, mãe e só mãe! E você não trepa com a tua própria mãe, cara, não a deseja como mulher, como fêmea. Ele foi acossado, colonizado, naquele instante contundente, pelas suas lembranças retrospectivas. Porra, ele se sentiu o próprio Édipo e se cegou ao sexo matrimonial.
- Chico, Chico, os eflúvios etílicos estão te tornando diáfano como um querubim barroco... Paulo continua: – o que você está dizendo, digamos, é que o sujeito desistiu da mulher e ficou com a mãe... Isso é coisa de psicanalista..
- De psicanalista o quê, Paulo – intercede Hélio – isso está na obra do Nelson, em muitas peças, nós vamos ver essa história em Álbum de família. Na tragédia, ele vai arrancar, de nossas regiões mais íntimas, o que não ousamos dizer ao padre, ao psicanalista, nem ao médium depois de mortos. Por isso é que ele foi censurado, apupado, chamado de tarado e vai por aí afora.
Paulo intercede: - Na época em que foi repórter, depois de entrevistar um monte de gente, ministro de Estado, Dom Hélder, sei lá, o Diretor da Casa da Moeda, talvez até o Bismarck, a Sarah Bernhardt, o Nelson concluiu que o ser humano é cínico e mentiroso. Por isso ele inventou as entrevistas imaginárias, que seriam realizadas à meia-noite em um terreno baldio, iluminado pela luz de archotes, na companhia de uma cabra que emprestava plasticidade à paisagem. Como cenário, o capinzal que a cabra comia. Ocasionalmente, dependendo do entrevistado e do que ele estivesse dizendo, o contra-regra providenciava relâmpagos de curto-circuito e trovões de orquestra. Genial, genial essa invenção do nosso amigo. (Em um influxo stanislavskiano): - Meus queridos, eis o que eu queria dizer: o Nelson descobriu que só no palco ele poderia extrair a verdade do homem, o seu imaginário inconfessável. Cercado de cenários, de irrealidade, de virtualidade e imerso no mundo imaginário e ficcional, (que paradoxo!), o Nelson promoveu a emergência da verdade. Mostrou-nos as pressões invisíveis que trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo. Shakespeare, o nosso Shakespeare de subúrbio, o nosso Sófocles da Aldeia Campista!
- Cara, o espírito do Nelson está baixando no Paulo, ho, ho, ho... Daqui a pouco vou chamar o Gorila para, espíritos encarnados, formarem um coro... E Sérgio continua: - Na época do Nelson, lá pelos anos 60, 64, digamos, 68, os nossos intelectuais e artistas eram colonizados pela esquerda festiva, como ele mesmo dizia. Tinham como modelo a grande revolução russa, cubana, o diabo. De repente, o Brasil se viu tomado por vietcongs, cubanos, chineses e russos, propunha-se que se fizesse do Brasil um Vietnã, e Nelson perguntava: Porque não fazer do Brasil o próprio Brasil? O Nelson é atualíssimo: "Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem"... Vejam: hoje somos pensados e tutelados pela globalização, pelo capital internacional, anônimo, pelo pensamento esquizofrênico, mentiroso e psicopata do Bush e de sua turma. Parece que vivemos uma esquizofrenia paranóide das boas, com surtos diários de violência em todos os lugares, no Iraque, no Afeganistão, na casa do caralho, meus queridos... A turma lá de cima se considera arauto da palavra de Deus, da civilização judaico-cristã, impondo a lei e a ordem aos árabes endiabrados que lançam fogo pelas ventas. Tudo armação, como sabemos. Hoje o Nelson estaria escrevendo sobre tudo isto e dizendo, com sua dicção arrastada e cava: "eu não disse, não alertei?" A nova colonização americana já começou no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, a nossa Nova Miami, há, há, há.... Nós somos uns danados, uns degenerados, bárbaros movidos por paixões avassaladoras. No fundo, nos identificamos com a voragem capitalista e damos vazão aos nossos impulsos vorazes e predadores. Estamos orfãos, aflitos, sofredores e como pitbulls avançamos contra os nossos semelhantes para devorá-los, como o Trevor Stone. E não temos ninguém que nos pense como fez o Nelson. Um brinde, um brinde ao nosso amigo!...
Todos brindaram. Uma lâmina de pepperone rosso escorregou do garfo de Hélio e grudou em sua camisa: - Olha, vê, repara na minha camisa a lagartixa do Nelson, repara!, a largatixa!...
Risos. Paulo ataca: - Vocês estão se tornando operísticos, sátiros de tapete e estamos deixando de lado o Álbum, onde parece que tudo começou... tudo... eu digo a virada, o mergulho do Nelson. Vamos ao Álbum.
Em coro: - Vamos, vamos, há, há, há, há...!
Caso um psicanalista entrasse no bar e observasse aqueles freqüentadores anotaria em seu caderno tratar-se de uma gargalhada trágica ou, no mínimo, dramática e triste. Eis a verdade: eles estavam felizes e fraternalmente unidos pela tristeza.
Álbum de família
Hélio, com a sua voz de barítono de igreja, toma a palavra: - O Sábato Magaldi escreveu, e eu concordo com ele, que a evolução dramatúrgica do Nelson levava a esse mergulho de que estamos falando, mergulho no inconsciente primitivo do homem. A mulher sem pecado já estava carregada de motivos psicológico. É um estudo sobre o ciúme delirante, prestes a romper as barreiras da censura interior. Vestido de noiva rasga o véu da consciência e, em seguida, no Álbum, ele mergulha nos arquétipos, no que está na origem de nossa infelicidade e danação na terra, e que nos compele a uma repetição compulsiva de atos predadores.
Paulo interrompe e esclarece: - O Nelson foi na contra-mão da comediazinha agradável, contra o teatro para rir, pois achava-o absurdo e tão obsceno quanto uma missa cômica, com o padre dando cambalhotas, o coroinha equilibrando maçãs na ponta do nariz, santos engolindo espadas, etc., etc. Ele não estava a fim de escapismo. Ele queria desvelar o obscuro em nós, o desagradável. Queria jogar o espectador dentro do palco, envolvê-lo em um drama trágico para que depois meditasse sobre o amor e a morte, sobre a sua canalhice e peste anímica, com o objetivo de acordá-lo e confrontá-lo consigo mesmo. Mas aí ele levou porrada de tudo que era lado, transformou-se em um caso de polícia e era chamado de tarado, de maluco, porque estava nos mostrando a verdade.
Hélio: - Aí as peças começaram a ser apupadas, xingadas, a platéia ficava em estertores histérico ao cair do pano no último ato. O Nelson descreve, com humor cáustico, uma cena na qual uma senhora, de pé em uma cadeira, gritava: - Tarado! Tarado! . Outras damas sapateavam como bailarinas espanholas, outras subiam nas paredes como lagartixas profissionais. Um vereador puxou o revólver e, como um Tom Mix, queria fuzilar o texto do nosso amigo. Foi a partir desses fatos, suponho, que ele concluiu que a unanimidade é burra e que a vaia, naquela circunstância, era um elogio ao fato dele ter tocado em algo profundo, inexorável e vital de nossas almas que preferimos manter na escuridão. Ele conseguiu, em termos dramáticos, o que desejava: chamar, digamos compelir o espectador ao palco para viver o drama que estava sendo encenado. O Nelson era o anti distanciamento brechtiano. Pensava que o sujeito tem que primeiro se identificar com os personagens, vivê-los, fazer a sua catarse e depois pensar.
Percebendo que o pensamento de Hélio finalizou, Francisco começa dizendo que Álbum de família é uma tragédia sem idade, fora do espaço e do tempo. O local onde a ação se desenrola, a fazenda de Jonas, localiza-se em S. José de Golgonhas, que parece fundir, como sugeriu Magaldi, o Gólgota de Cristo e Congonhas, cidade mineira que ostenta os profetas do Aleijadinho. Assim, as rubricas parecem remeter a símbolos tradicionais do nascimento e da ancestralidade do mundo. - Portanto, continua Francisco, o que os personagens nos mostram é algo que pode acontecer em qualquer época, faz parte integrante de nossa ancestralidade psicobiológica. E aparece – ou pode aparecer – quando os controles sociais se fragilizam e apodrecem, quando a ética vai pro espaço. Aí as tendências humanas mais primitivas se manifestam, tomam conta da gente, a percepção do outro, dos limites entre nós e o outro, desmoronam. Estou assustado. Acho, posso até estar errado – será que o Nelson está me assustando? – Pois bem, estou apavorado com que o futuro reserva aos nossos netos. O Iluminismo está desmoronando, o mundo está entregue aos impulsos predadores, ao imediatismo. E todos mentem, os governantes, o Bush, o Lula. Vocês esperavam que o PT fosse fazer um governo neoliberal, pactuando com o capital anônimo internacional, com esse imenso cassino virtual em que se transformou o mundo dos negócios? Cara, é demais, que mentirosos! Ele, o Lula, é um frouxo, a ética dele é um catecismo bobo. O PT caiu de quatro diante da ultra direita capitalista. O cara traiu o voto da grande multidão que votou nele, traiu o programa de governo que o PT defendeu durante vinte anos! Não entendo, não entendo... Parece que um destino implacável pesa tragicamente sobre nós, humanos, tornando-nos incapazes de reagir à barbárie com programas políticos novos e criativos, como Jonas o foi, Senhorinha, Edmundo, Guilherme e Glorinha. Eles cederam ao incesto e nós, à gula, à voracidade rapace, como diz o Conrad, e ao desamor ao próximo. A cartilha do Rumsfeld é a grande vencedora, e a turma dele, Rumsfeld, são as nossas Eríneas (ou falcões, somos levados pelos bicos dos falcões como vermes) que nos conduzem a um destino funesto.
Sérgio ataca com entusiasmo: - Deus está morto, como disse o Nietzsche, a utopia da fraternidade desmoronou, estamos na base do salve-se quem puder. O que importa, nesse instante em que vivemos, é o âmago da natureza humana e a sua imensa fragilidade. Hoje vivemos sem utopia e projeto humanista. Sabe de uma coisa?, pois bem: estou até me achando um babaca usando essa palavra. Mas olha, vê: a Senhorinha não tem projeto, ela está completamente possuída pelo desejo incestuoso, pelo desejo incestuoso e narcisistaa de possuir sexualmente o filho mais velho, o Nonô. Sem nenhum limite, realizado o encontro sexual entre Senhorinha e Nonô, o filho enlouquece, despes-se de sua identidade social e humana e vive nu nas cercanias da fazenda, uivando um grito hediondo, animalesco, lambendo a terra. Jonas, o pai, desloca o seu desejo pela filha, Glorinha, e o satisfaz de maneira bestial, violentando e, eventualmente, matando meninas de 14, 15, 16 anos. Glorinha, no internato, ao beijar na boca a amiga em um beijo lésbico, via a imagem do pai refletida em seu rosto. Edmundo abandona a esposa e volta para a fazendo de onde fora escorraçado pelo pai e, diante da preferência da mãe por Nonô, mata-se em sua presença. Guilherme, o filho mais novo, seminarista, castrou-se, e ao se sentir rejeitado pela irmã, inteiramente extasiada pela imagem do pai, liquida-a com um tiro e se lança diante de um trem em movimento. Após matar o marido, Senhorinha vai ao encontro de Nonô. Vocês lembram do que ela disse ao marido? Ela falou que depois da relação sexual com o filho, com Nonô, ele enlouqueceu de felicidade, não agüentou tanta felicidade!
Hélio, veemente, em um lampejo trágico-psicanalítico, interrompe: - Jonas teve medo e mandou Glorinha para o internato, Edmundo teve medo e se casou – mas nunca...nunca, jamais tocou na mulher, Heloísa, porque a imagem da OUTRA (a mãe, obviamente) sempre se interpunha entre os dois, marido e mulher – Nonô teve medo e enlouqueceu. Mas Senhorinha, não. Ela não quis esquecer, reprimir o seu amor incestuoso e desagregador, ela não obedeceu a nenhuma interdição, mesmo testemunhando as trágicas conseqüências de seu gesto. Eu lembro dessa parte, lembro. Ela diz: "Eu não quis esquecer; eu não quis fugir; eu não tive medo, nem vergonha de nada. (possessa) Não botei meus filhos no mundo para dar a outra mulher!" Depois, virando-se para o marido de maneira insultante: "Se você soubesse o nojo que eu sempre tive de você, de todos os homens!" Em seguida, numa atitude de adoração, acariciando o próprio ventre, conclui: "Só tenho amor para meus filhos!". E Jonas, num importe desesperado, pede à mulher que o mate, que atire, pois a vida não tinha mais sentido sem Glorinha. A esposa, naquele exato instante, ele descobre, se parece com a filha. Ele se aproxima da mulher e, em um transporte quase alucinatório-delirante, comenta como ela se parece com Glorinha. Tenta beijá-la, é rejeitado, e finalmente pede que o mate, que atire. Jonas queria... queria – vai ver que no fundo era isto – almejava a morte, a única esperança de paz e finalmente encontrar a filha em um amplexo eterno. Senhorinha ouve o grito de Nonô, como um apelo, e atira. Jonas morre. E ela diz: "Nonô me chama – vou para sempre!"
Noite plena. Anunciada por uma suave e gélida brisa tocada pelo mar, Ana Flávia traz aos amigos o calor de sua presença. Beija-os, abraça-os, trocas de carinhos e aconchego. Ela se senta ao lado de Paulo e lhe oferece os lábios em um beijo delicado, intenso, como se dissesse: "sou tua". Os amigos admiram a suavidade de seus traços, a tranqüila beleza pálida de seu rosto grego, os cabelos negros, cheios, mediterrâneos, cortados na altura da nuca. O vestido leve, de tweed cinza, pressiona e assinala as linhas de seu corpo e os seios reagem gentilmente à pressão tátil do tecido. Hélio, com os olhos bem abertos, assinala: - Linda, linda, linda... minha deusa!
- Oh, Hélio, querido, te amo, te amo. Calma, meninos, não fiquem agitados de ciúme, amo sim, amo todos vocês. (Risos e palmas de teatro). Um tênue foco de luz incide sobre Ana Flávia, oferecendo-lhe um halo de luz resplandecente. Ou é a luz que reflete de seu corpo luminoso? Então ela pergunta: - Sobre o que vocês falam, qual é o assunto?
- O assunto é o Nelson, informa Sérgio. O Paulo está escrevendo um ensaio sobre o Nelson, sobre a dor na dramaturgia do Nelson e estamos conversando sobre isto. Não agüento mais de tanta dor. Estávamos falando sobre a dor e o desespero em Álbum de família...
- Concentrando a nossa análise na presença da dor em todas aquelas situações trágicas que o Nelson alinhava – completa Francisco.
- O Paulo me disse que viria encontrar com vocês, aí eu vim também...
- Precisamos da voz feminina, ótimo, ótimo.
Com humor e sorrindo, entreabrindo lentamente os lábios, Ana Flávia prossegue: - Vocês, o Paulo, estão melhor equipados do que eu para falar do Nelson. O que eu posso dizer? Vocês querem a voz feminina. O que me ocorre dizer é que o Nelson se transformou em um personagem de si mesmo. Ele tinha um humor dramático, talvez trágico, paradoxal, e dizia que as mulheres gostam de apanhar. Ele repetiu isto em vários contextos, milhões de vezes. Agora, sendo eu a paradoxal, falando como mulher, mãe e pediatra, te digo: ele tinha razão.
- Que é isto, minha deusa, o que é que você está dizendo?...
- É isto mesmo: gostamos de apanhar. (Com veemência) Tem mais: estamos levando porrada desde tempos imemoriais, permitindo, passivamente, que os machos nos maltratem e nos ofereçam esse mundo maluco, agressivo e destrutivo que estamos vivendo. Estamos vivendo anos duros, de chumbo e o resultado está aí, uma agressividade destrutiva evidente em termos mundiais. Lá no hospital, na maternidade, criamos um grupo de gestantes e de mães recém-paridas com o objetivo de discutirmos essa situação, procurando sensibilizar as mulheres para a importância da maternidade e do acolhimento gentil e amoroso dos filhos bebês. Porque acreditamos – o meu estafe e eu – que é nesse momento inaugural que a liga, as fundações do eu se sedimentam. É desse núcleo, dessa matriz ontológica que se manifesta a força do eu e do amor. Os personagens do Nelson carecem dessa força, exibem, como os analistas falam, uma ferida narcísica de onde o sangue e a força do ser se esvaem, deixando-os em uma inermidade emocional e psicológica desesperadora. Eu disse ao Paulo, quando ele começou a escrever sobre o Nelson, que este ponto é importantíssimo. Estou lendo o Nelson como uma mulher atual, médica pediatra, mãe da Cíntia, tentando entender a danação trágica de seus personagens. E a nossa, que é atualíssima. A danação trágica exige de nós esse confronto. Confronto com o nosso ressentimento pelo descaso com o nosso ser mais íntimo, que nos conduz ao ódio e ao desprezo pelas relações amorosas interdependentes. Nós, mulheres, não podemos mais permanecer em silêncio, precisamos levantar a nossa voz em defesa da vida e do amor. Precisamos, é urgente, urgentíssimo, que enfrentemos as Eríneas cara a cara, esse nosso destino impregnado de ódio e desprezo ao outro, para que consigamos transcende-lo e sublimá-lo. Eu fico tão aflita com essa situação mundial, às vezes tão pessimista! Sabe, Hélio, os falcões, esses homens de chumbo, esses homens de merda, desculpem, desculpem...
- Somos uns merdas mesmo, Ana Flávia, uns merdões – arremata Sérgio.
- Acho que esses caras tipo Bush, Rumsfeld, Bin Laden, Sharon, Lula, Palocci e a sua turma de economistas, são todos descendentes do Boca de Ouro. É isso: descendem diretamente do Boca, é impressionante! Você já viu os economistas na televisão, como eles falam o economês completamente dissociado da pessoa humana? A gente não existe pra eles, cara, somos números manipulados pelos computadores. O Lula está construindo um caixão de ouro pra se enfiar nele quando se ferrar nas próximas eleições... Vocês acham que esses caras estão preocupados com a devastação psicológica que provocam no Iraque? Com os aleijões humanos que os bombardeios criam, crianças com os membros decepados pelas explosões, rostos apavorados, perplexos – um horror, um horror... Vocês viram o que aconteceu naquela prisão de Benfica, gente esquartejada, degolada e o governo do estado nem se manifestou, o Garotinho e a Garotinha sumiram, se fecharam em silêncio. Esses caras são agentes infecciosos como a peste medieval. Temos que abrir-lhes o abcesso para que a ferida purgue e o pus se dilua e purifique ao sol da consciência. Caras, todas as vezes que encontro o Hélio fico assim pleonástica...
- É influência da pujança anímica do Hélio. – E Sérgio continua: Eu nunca ví esses caras pensando e planejando globalizar a riqueza do primeiro mundo, o sistema educacional e de saúde, o alimento. Eles querem globalizar o cassino financeiro, a manipulação internacional e virtual das finanças. Qual foi o lucro, desde que começou a loucura no Iraque, da indústria bélica americana? Os caras devem estar ganhando uma montanha de dinheiro como o Trevor Stone. Eles têm uma fome ancestral pantagruélica e devoram o que estiver à frente. Uma fome emocional pré-histórica insaciável, como falou o Francisco. Hélio, por falar em fome insaciável, fala do Boca, você escreveu um ensaio genial sobre a peça em um estilo literário absolutamente elegante.
- Obrigado, Sérgio, obrigado.
- Um instante. Desculpem, me desculpem, só um instantinho – intervém Ana Flávia e arremata: - No ensaio que escreveu sobre Album de Família o Pedro Dantas comenta sobre a tragicidade de Senhorinha, dizendo que ela é a personagem trágica por excelência, pois vive lucidamente a sua tragédia. Ela a compreende no plano super individual. Ela é superior à vida e à morte, pois que se sabe marcada pela fatalidade, ordem misteriosa dos deuses. A Senhorinha é um símbolo para nós, mulheres, exatamente por causa dessa lúcida inconsciência trágica. O Dantas registra que os fatos e sentimentos humanos passam por ela – ou ela passa por eles – sem afetá-la, como se ela pertencesse a uma época anterior ao pensamento reflexivo. Daí o seu destino trágico. Ela parece totalmente imersa no seu mundo narcísico, individual, pulsional, pré-reflexivo. Nessa dimensão psíquica, o outro é inexistente e, quando se faz presente é rejeitado e ignorado, como Heloísa o foi por Edmundo. O pai rejeita os filhos, estes odeiam o pai que, por sua vez, entretém um amor idealizado por Glorinha. Como se Glorinha – pelo simples fato de se parecer com a mãe –, representasse para ele, Jonas, a possibilidade de eternização do amor maternal ou realização da fantasia de união com a mãe virgem, na dimensão edênica. Nessa perspectiva, Jonas odeia Senhorinha, a mãe sexual em Senhorinha, que o traiu dando a luz a potenciais competidores à exclusividade de seu amor maternal. Está complicado? Estou sendo clara?
- Prossegue, prossegue por favor, Ana Flávia retoma: - Falei isso com o Paulo, repara que ocorre na tragédia um aparente diálogo entre os personagens, mas, na verdade, o que ouvimos é um diálogo monológico, digamos assim, entre Edmundo e a mãe, entre Guilherme e Glorinha, etc., quando se deixam levar pelos influxos do desejo de união fusional com o outro.
- E o pai, nessa história? – pergunta Sérgio.
- O pai não exerce a sua função de pai. Ele talvez nem saiba o que isto significa; ele é pré-histórico, não existe lei para ele, interdição e limites sociais que propiciam as relações familiares, sociais e o desenvolvimento emocional do sujeito. Ele tenta, mandando Glorinha para o colégio interno, mas fracassa. O pai não é apresentado aos filhos como parceiro sexual da mãe, e também responsável pela socialização dos filhos. Jonas parece representar o sujeito pré-sexual, pré-genital, Adão e Eva no Éden, antes da Queda. Por isso ele degrada a relação sexual mantendo contatos com meninas adolescentes que, em seguida, agride e destroi. Senhorinha, mãe, vê nos filhos a oportunidade de realizar a fantasia de união fusional ou o retorno ao útero materno. Eles estão isolados naquele espaço claustrofóbico, sem saída, sem recursos para empreender a libertação do casulo narcisista. O Edmundo diz algo sobre isto...
Ana Flávia retira de sua bolsa o livro de Nelson e o abre em uma de suas páginas marcadas. Lê:
Edmundo (mudando de tom, apaixonadamente) – Mãe, às vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer, você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então o amor e o ódio teriam de nascer entre nós. Mas não, não! Eu acho que o homem não devia sair nunca do útero materno. Devia ficar lá , toda a vida, encolhidinho, de cabeça para baixo, ou para cima, de nádega, não sei". [E mais adiante]: "O céu, não depois da morte; o céu, antes do nascimento – foi teu útero... Eu queria tanto voltar a ser o que já fui: um feto no teu útero.
- É isso aí. Nesse universo arquetípico rodrigueano – continua Ana Flávia – viver fora do útero – ou do Jardim do Éden – significa queda, danação e dor. No correr do processo civilizatório, as relações de amor e carinho se desenvolveram para dar conta da queda e propiciar ao bebê uma entrada gentil e amorosa no ambiente materno e social. O ambiente social e psicológico em que vivemos hoje, o que nos faz, é facilitar a entrada no inferno.
- Você me forneceu, Flavinha, o gancho para falar do Boca de Ouro. Ele representa certas realidades inconscientes fundamentais e universais de nossa natureza – acrescenta Hélio e prossegue: - Tanto é assim que ele aparece como presença autônoma, na primeira cena, no dentista, quando manda arrancar todos os dentes sadios para substitui-los por uma dentadura de ouro. Aí temos o cerne de seu projeto existencial. Boca de Ouro escolhe o caminho da potência onipotente, da força desmesurada e agressiva, através da qual espera agarrar a invulnerabilidade desejada. Os dentes naturais são perecíveis, envelhecem e morrem. Seu poder de domínio triturador, ao optar pela dentadura que lhe deu o nome, busca transfigurar-se e imortalizar-se pelo caminho da agressão primitiva, aquém ou além do bem e do mal, transformando-se em um sujeito violento e cruel. Nessa dimensão mítica, ele desaparece como ser individual, não aparece mais na peça e existirá apenas pelos olhos dos outros, terá as muitas faces que os outros lhe atribuem, será a encarnação das fantasias de onipotência e despotismo que os outros, através dele, buscam exprimir.
Francisco, que acompanhava atentamente as palavras de Hélio, comenta que a dentadura de ouro, metal imperecível e duro, talvez emprestasse à personalidade ou ao eu de Boca de Ouro, a sensação ilusória de eternidade inquebrantável. Como se a sensação do metal em sua boca se espalhasse pelo corpo e o transformasse em uma personalidade metalizada e indiferente à dor e aos sentimentos. Foi uma defesa contra a sua imensa fragilidade. - Tem mais, Hélio: os dentes de ouro, como você falou, aumentam o poder oral, triturador e agressivo do Boca. Me lembra o Trevor Stone, do Lehane. A oralidade predadora, eu digo. As presas do Boca agarravam o que ele bem entendesse e as triturava. Ele, um desgarrado, um arrancado do útero e do corpo materno, avançava sobre o que desejasse para possuí-lo. O Boca também tinha, como o Stone, um buraco na boca, um câncer que aumentava a cada nova dentada.
- Sim, você tem razão. Ele nasceu de mãe pândega, parido num reservatório de gafieira. A mãe era gorda, tão gorda, que não se notava a barriga da gravidez. Na gafieira pulou, dançou, o diabo. De repente sentiu um troço, um puxo, pediu licença e foi ao toalete das senhoras. Então o Boca nasceu. A mãe o apanhou e enfiou-o na pia. Depois abriu a bica em cima dele – num batismo cruel e pagão –, e voltou para o salão. Vejam vocês: ele perdeu a proteção uterina para defrontar-se com uma realidade hostil e inóspita, sentiu-se condenado à condição de excremento. Ele foi, digamos assim, expulso do Éden e rojado ao mundo como um desprotegido emocional, um desvalido, recebido em um mundo metálico, frio e inóspito. Frente a essa angústia fundamental, a essa falta básica, escolheu o caminho da violência e do ressentimento para superá-la e sobreviver. Ele realiza uma identificação com o agressor. E, como um personagem mítico, na verdade movido por um desejo onipotente de destruição, ele se achava meio deus, não pelo poder de criar, mas de humilhar e destruir.
- O Boca fala do seu nascimento na cena com as grã-finas, lá pelo meio do segundo ato – assinala Francisco e prossegue: - As grã-finas, egressas de escolas de primeiríssima linha, fazem comentários jocosos, idiotas, desprovidos de qualquer simpatia e solidariedade humana. Elas me parecem tão cruéis quanto o Boca. Me fazem lembrar daquelas mulheres sorridentes torturando presos na prisão do Iraque. Elas representem a nossa boçalidade e destrutividade frente ao desamparo do outro. Vejam vocês: elas nem reparam que o nosso herói, ao ser instado a contar a história da pia apresenta, por um momento, em seu sorriso, um ricto de choro. A única que percebe é a sofredora, pobre e desamparada Celeste, que termina sendo morta a golpes de navalha pelo bandido. As grã-finas parecem que vencem a parada ao final da peça. Mais especificamente, Maria Luísa, a de maior destaque. O texto sugere que ela matou o bicheiro com vinte e nove punhaladas. Ou seja: a classe dominante impôs sua lei e crueldade contra o Drácula de Madureira, o Don Quixote do jogo do bicho, um fichinha de merda que ousou desafiar a sua força.
Hélio, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, ávido para falar, dispara: - O Boca que, pela violência homicida, pretendeu realizar a transmutação do sentimento de ser um excremento, transformando-se a si próprio em ouro imperecível, acabou lançado à sarjeta, com a cabeça no ralo, reduzido à matéria de que tinha horror. Ainda por cima, depois de morto, roubaram-lhe a dentadura. Na minha opinião o Nelson mostra a impossibilidade do homem de, pelo furor destrutivo, conseguir salvar-se.
Ana Flávia, com entusiasmo: - Fica evidente, Hélio, como você escreveu no teu ensaio, que o ressentimento e sua decorrente raiva cega, arrastam o ser humano para o abismo do aniquilamento. Com o caixão de ouro que o Boca mandou construir, para repousar depois de sua morte, ele pretendia contrapor-se ao útero que o expulsou e o lançou na abjeção, no frio desamparo da pia metálica. Na sua fantasia onipotente ele repousaria no útero de ouro incorruptível e eterno. Danou-se. Terminou com a cara enfiada no ralo da sarjeta e sem os dentes, que lhe foram roubados. Aí eu penso no furor psicótico e destrutivo que estamos vivendo. Será que vamos acabar, como espécie, com a cara enfiada nessa merda que estamos criando, com o Bush, o Sharon, o Bin Laden e os boçais narcisistas no comando?
Silêncio. Uma atmosfera depressiva, mas tênue, se adensou entre os amigos. O celular de Ana Flávia dispara uma sonata de Mozart:
- Oi, filhinha... Sim, estou com o seu pai. O Hélio está aqui. Ele quer te ver... O Francisco também e o Sérgio..
- Convida ela, diz para ela vir até aqui, a gente está convidando.
- Olha, escuta, eles estão pedindo para você vir. É pertinho de casa. Um pulo. Estamos no Beringela. O antipasto está ótimo...
- Diz pra ela vir e trazer a brisa da manhã e a visão do pardal canoro alçando vôo... – replica Hélio com o olhar perdido dentro da noite.
- O Hélio insiste. Sim, te esperamos. – E desliga.
Com a voz em suave crescendo, agora alegre, Ana Flávia continua:
- Nós, mulheres, temos que levantar a nossa voz para sermos ouvidas. Para que os machões voltem a encarar o nosso regaço, os nossos seios e corpos como um lugar de repouso e bem estar. E voltem a sentir a suave textura da vida e do amor feminino de que tanto carecem. Que saiam desse toalete de gafieira fétido e frio! Nós precisamos inventar um novo tempo, o tempo feminino, para que essa infelicidade e matança se finde. Ihh... acho que a voz da Cíntia me deixou romântica, talvez esperançosa, sei lá!
Hélio, após degustar suavemente o vinho, acrescenta: - A Cintia é a nossa antemanhã, a nova luz que irradia de ti, Ana Flávia, luz de esperança. Ela está chegando, vejam. Paulo, como ela está radiante. Como se parece contigo, Ana Flávia.
- É verdade, - acrescenta Sérgio, e conclui: igualzinha, você não acha, Paulo?
- Sim, parecidíssima. Talvez a nova mulher, a nova mãe. Linda. Bela. Mediterrânea. Que prazer, cara!
E todos se levantam à sua chegada. Talvez fosse apenas uma impressão fugaz e imaginária, mas sentiram, os pais, Hélio, Francisco e Sérgio, uma ligeira alteração na iluminação da varanda do bar. Uma tênue irradiância incidiu sobre todos trazida pela presença de Cíntia. Ou foi pela estrela que se tornou brilhante no infinito do céu? Podemos, ainda, imaginar que o contra-regra fez incidir um tênue foco de luz sobre a cena encantada.
Coro
O ser humano é louco! E ninguém vê isso, porque só os profetas enxergam o óbvio!
...há, entre nós e a loucura, um limite que é quase nada.
... a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil, para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. No Crime e Castigo, Raskolnikoff mata uma velha, e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós estará diminuído, aplacado. Ele matou por todos. E, no teatro, que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros.
Essa é a nossa possibilidade de redenção e ascese. Per omnia secula seculorum, amem.
*
Nota: para a construção das falas dos personagens, foram utilizados fragmentos de textos de Pompeu de Souza, Pedro Dantas, Sérgio Milliet e Hélio Pellegrino, publicados como fortuna crítica no Teatro completo de Nelson Rodrigues, organizado por Sábato Magaldi e editado pela Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993.
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